Autismo e hipermobilidade articular: conexão entre comportamento e estrutura corporal

Autismo e hipermobilidade articular: conexão entre comportamento e estrutura corporal

26 de agosto de 2025

O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é amplamente conhecido por suas manifestações comportamentais, como dificuldades na comunicação social, padrões repetitivos de comportamento e interesses restritos. Mas o que muitos desconhecem é que pessoas com TEA podem apresentar características físicas associadas, como alterações na mobilidade articular, que ampliam nossa compreensão sobre o cuidado e as múltiplas dimensões do autismo. 

Nos últimos anos, pesquisadores têm identificado uma conexão importante entre o TEA e a hipermobilidade articular, uma condição em que as articulações se movem além da amplitude considerada normal. Essa flexibilidade aumentada pode parecer uma vantagem, mas em muitos casos está associada a dores frequentes, cansaço, instabilidade nas articulações e pode ser acompanhada de alterações no funcionamento do intestino ou da circulação. Em quadros mais complexos, essa condição recebe nomes como transtorno do espectro da hipermobilidade ou síndrome de Ehlers–Danlos.

Uma análise recente de diversos estudos científicos já publicados sobre o tema confirmou que pessoas com TEA têm maior chance de apresentar hipermobilidade articular do que a população geral, cerca de 22%. Por outro lado, entre os indivíduos com hipermobilidade, 27,9% apresentavam diagnóstico de autismo. Esses achados reforçam uma associação relevante entre as condições, que ainda está sendo estudada em maior profundidade.

Além disso, tanto pessoas com autismo quanto aquelas com hipermobilidade articular frequentemente apresentam disautonomia, um desequilíbrio no sistema nervoso autônomo, a parte do corpo responsável por controlar funções como a frequência cardíaca, a pressão arterial, a respiração e a regulação da temperatura. Quando esse sistema não funciona bem, é comum surgirem sintomas como fadiga intensa, tontura ao ficar em pé, palpitações e sensação de mal-estar frequente.

Embora nem toda pessoa com TEA tenha hipermobilidade, e vice-versa, entender essa ligação pode ajudar profissionais da saúde e familiares a acolher queixas físicas que muitas vezes são subestimadas ou mal interpretadas. Um desconforto persistente, dificuldades motoras ou sensação de exaustão podem não ser “drama” ou “preguiça”, podem ser parte de um quadro corporal real, que merece atenção e cuidado.

O corpo também fala. E no autismo, ele pode estar dizendo muito mais do que se imagina.

Josiel Mack
Josiel Mack

Médico, professor e neurocientista, com trajetória acadêmica voltada ao estudo do cérebro, dos medicamentos e do comportamento.
Formação inclui graduação em Farmácia, mestrado e doutorado em Farmacologia e pós-doutorado na linha de Neurociências. Além da clínica, atua como professor do curso de Medicina e orientador de pesquisas sobre neurodesenvolvimento e TEA.
Atende no formato online e presencial, na Clínica Cíkel (Pedra Branca, Palhoça), unindo a prática médica ao conhecimento científico, sempre com escuta qualificada, empatia e olhar individualizado para cada paciente.

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